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Depois de «Uma Visita a Bosch», romance de cariz semi-biográfico sobre o grande pintor flamengo dos séculos XV/XVI, o autor repega a temática das artes plásticas como mote para a escrita. Agora, sob o formato de contos, onze contos em torno do criar, das suas motivações e angústias, das suas múltiplas hipóteses de leitura. Acrescem a este todo quatro outros contos de temática diversa. Sob o título «Contos de Fronteira», quatro histórias assumem uma vertente mais politizada, versando exemplos de povos ou etnias forçadas ao exílio ou à diáspora em busca de melhores condições de vida ou tão-só de um lugar ao Sol. Em ambos os casos, o real e a imaginação rubricando juntos o prazer maior da escrita.
Fui apanhado em Barcelona, à noite, quando me deslocava na Carrasco Formiguera, perto do cruzamento com a Dolors Monserda. Chovia. Tinha estado em casa do Alfonso Laurencic, a jogar Poker, e a sessão nem tinha corrido mal de todo; arrecadei umas 20 mil pesetas. Deixei os companheiros de jogo relativamente cedo, uma vez que na manhã seguinte tinha reunião no quartel. Para mais, Dolores esperava-me e eu sabia que quando abrisse a porta de casa ela estaria ainda acordada; longe iam os tempos em que ela conseguia pregar olho de eu chegar. Agora, não. Como as coisas estavam, com os republicanos e os anarquistas a minarem o país, investindo contra as tropas do Generalíssimo, já não havia sossego, ninguém estava em segurança. Todas as vidas estavam a soldo e a minha não escapava à regra. Foi assim que também eu, simples soldado ao serviço do regime, de um momento para o outro, me vi prisioneiro, destituído de quaisquer direitos e levado para parte incerta. Dolores não deve ter dormido... Eu muito menos o pude fazer, e nem sequer nos meus piores sonhos pude imaginar o calvário porque iria passar ao longo de três penosos meses até ser libertado por tropas republicanas em Março de 1939.
Se me perguntarem como tudo exactamente aconteceu, não muito a esse respeito vos saberei pormenorizar. Na verdade, nada vos poderei acrescentar senão que tudo se passou numa questão de segundos, enfim, um, dois minutos, não mais. Digamos, o tempo de um arrepio de frio; primeiro a surpreender-nos o pescoço, como pontada súbita, depois, num ápice, a percorrer-nos as costas. Estava frio, um vento de norte esgarçava-se de encontro aos corpos, fazendo-me curvar o rosto para baixo, encolhendo os ombros dentro das golas do sobretudo puxadas para cima. Acabara de deixar a porta de entrada do prédio do Alfonso. Não tinha dado mais do que uma dúzia de passos, acabava tão-só de abotoar até baixo os botões, e, no instante seguinte, vindos de não sei onde, dois homens saltaram sobre mim mais rápidos do que a Tramontana quando se abate sobre a cidade, transpondo as falésias, ganhando os campos para logo, logo se abater sobre a cidade, quarteirão a quarteirão, rua a rua, prédio a prédio, parede a parede, corpo a corpo, pele a pele. Um deles, agarrou-me o pescoço com a sua mão rija e áspera enquanto que com a outra, não menos bruta, tratou de me encostar o cano frio de uma pistola ao pescoço, aconselhando-me o silêncio caso quisesse continuar vivo. No entretanto, logo um outro tipo me algemou as mãos, retirando em seguida do bolso do casaco uma venda com a qual me tapou a vista. Palavras, quase nenhumas, enfim, as indispensáveis nessas circunstâncias, reiterando a ordem já antes expressa: «Ou te calas ou calas-te para sempre.» É claro que me calei. Os tempos que se viviam não estavam para actos de resistência ou grande bravura, por dá cá aquela palha podíamos ir desta para melhor. Eram tempos em que o matar era tão corrente como o viver. A guerra e o ódio aproximam vida e morte, diluem-lhes as distâncias; é assim desde sempre e sempre assim será, os dois pólos confundindo-se no nada, na irracional, no sem sentido.
Referência - 1501015 ISBN- 978-972-9250-34-7 Edição: Janeiro 2008 PP: 128 Formato: 145 x 220 Capa: Brochado
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